Edição JUL / DEZ - 2016

    

      Diz um verso de Manoel de Barros, Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Como um enunciado tão singelo pode dizer tanta coisa sobre nós? Como no poema Retrato do artista quando coisa, do poeta cuiabano, e o grafite parisiense, presentes nesta edição, sugerem: é necessário um novo estilo de vida, ou melhor, uma nova humanidade... Buscar ser outros pode e, talvez, tenha que ser pautado por nós. Buscar ser outros é buscar também se reinventar, é fazer diferente, é não aceitar com resignação o que se é ou onde ou como se está. Sem dúvida, precisamos ser, cada vez mais, outros no cenário social, intelectual e político atual.  A revista Encontros de Vista, na esteira de busca das novas faces diante das suas fases, dá continuidade à discussão iniciada na edição 2016.1, apresentando trabalhos e reflexões realizados no GELNE – Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste. São trabalhos que evidenciam a literatura e a língua(gem) com suas matizes variadas de objeto(s) de estudo(s), a gramática, a língua, a arte, a humanidade, a vida!
Em “Concretizando Desejos: aspectos pós-coloniais e a emancipação feminina no poema Pingentes de Citrino, de Adélia Prado”, Adriana Minervina da Silva discute a questão da emancipação feminina e os aspectos considerados pós-coloniais. Neste trabalho, faz-se uma reflexão sobre a voz feminina historicamente silenciada. Trata-se de um artigo rico na discussão teórica que oferece, ao mesmo tempo em que discute como o poema Pingentes de citrino “desconstrói” o pensamento colonizador sobre o gênero feminino e se mostra como prova de que a literatura pode ser um lugar favorável para a construção de gênero numa perspectiva de emancipação para a mulher.

Bianca Campello Rodrigues Costa aborda, em “O romance romântico e a pintura de paisagem: documentos do espaço”, como literatura e pintura, nos fins do século XIX a partir de um gênero pictórico, mantiveram relações em sua historicidade e o processo especular mantido entre a poética ficcional do espaço na literatura e a pintura de paisagem. Sua análise se constitui numa discussão das obras do Romantismo e visa ao aprofundamento do conhecimento da relação entre as artes neste período e seu foco na paisagem. Costa revela com detalhes o encontro dessas artes na forma de espelhar o mundo.

Defendendo a literatura como objeto de trabalho para a formação de leitores literários e de futuros “professores-leitores” que compreendam o discurso singular do literário e que estes auxiliem nos caminhos de sua formação profissional, Érica Thereza Farias de Abrêu busca refletir sobre o ensino de literatura de língua espanhola nos cursos de formação de professores tomando o objeto literário como centro e não como meio para o domínio do objeto linguístico. Em seu artigo “A literatura em língua ‘estrangeira’ por si, um olhar”, a autora discute as experiências didáticas de alunos da graduação em um curso de Letras/Espanhol de um curso superior, ressaltando a importância de um aporte teórico de estudo que passe pela teoria e crítica literária bem como pela fundamentação linguística.

À luz do Interacionismo Sociodiscursivo, Luciana Vieira Alves Rocha e Maria de Fátima Alves, em “Ensino de gêneros textuais escritos: um estudo de caso de uma professora de língua portuguesa do ensino médio”, buscam compreender as concepções docentes que subjazem a prática de ensino de gêneros escritos. Para tanto, investigam como os gêneros textuais escritos são concebidos e explorados por professores do Ensino Médio, tendo como corpus para análise uma entrevista com uma professora de escola pública de um município paraibano e as atividades planejadas e aplicadas por ela em turmas de 3º ano do Ensino Médio.

Com foco na relação entre Literatura e Cinema, o artigo “Uma análise intersemiótica da adaptação do livro As horas para o cinema”, de Luiza Moreira Dias, realiza uma análise da adaptação do livro As Horas (1998) – do norte-americano Michael Cunningham – para o cinema, dirigida pelo diretor Stephen Daldry, em 2002. Com base nos conceitos de adaptação, de Hutcheon (2006), e de metaficcão, de Bernardo (2012), a autora promove uma análise tanto do livro quanto do filme, observando as singularidades de cada linguagem e as relações intersemióticas entre as duas manifestações artísticas.

No artigo “Cultura e léxico na obra machadiana”, Maryelle Nascimento analisa o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas para compreender o modo como Machado de Assis dialoga sua ficção com a realidade brasileira e o modo como ressalta o vocabulário dos personagens como ferramenta de contextualização histórica. Tomando como base metodológica a pesquisa bibliográfica, a autora investiga a influência da linguagem nas falas dos personagens do referido romance e destaca a importância do papel do autor em situar sua obra no “tempo e no espaço”, além de relacionar história e literatura para defender como esta permite conhecer uma época.

O artigo de Noelma Cristina Ferreira dos Santos e Camilo Rosa Silva, intitulado “A funcionalidade dos fenômenos relativos: ‘O que’ em questão”, aborda a gramaticalização do pronome “o que”. Os objetivos são: analisar as funções sintáticas e semântico-discursivas desse item em textos escritos de registro monitorado; investigar o nível de gramaticalização em que essa forma se encontra; e analisar o contexto sintático em que ela está inserida. O corpus é composto de redações produzidas em um processo seletivo de uma escola técnica brasileira, para o ensino médio integrado ao profissionalizante. Os resultados apontam para a identificação de diferentes tipos de integração oracional com esse mesmo item e revela que esse pronome relativo também se mostra catafórico nas orações por ele introduzidas.

Fechando esta edição da revista, Wilck Camilo Ferreira de Santana, no artigo “Caçadas de Pedrinho e a formação crítica, ideológica e perceptiva do leitor literário”, aborda a produção de Monteiro Lobato pondo em paralelo a obra do ficcionista/crítico à do escritor de literatura infanto-juvenil com intuito de legitimar o valor e a atualidade das suas ideias pedagógicas. A análise, focada nas Caçadas de Pedrinho, busca investigar o projeto literário infantil de Lobato como ferramenta de formação e humanização. Além de ideias do próprio autor, a discussão pauta-se no pensamento de Antonio Candido (1980), Marisa Lajolo (1999), Regina Zilberman (2004) entre outros estudiosos da Literatura, da Pedagogia e da Crítica de Monteiro Lobato, revelando como a teoria pedagógica lobateana torna a literatura um recurso didático.

Por fim, reiteramos, como de costume, nosso convite às leitoras e aos leitores para se renovarem com a décima oitava edição, ao mesmo tempo em que aproveitamos para anunciar a introdução de dossiês temáticos a partir do próximo número nas edições da Encontros de Vista.  Sejam muito bem-vindos para desvelarem novas produções de sentido!

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Os Editores

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Artigos:

CONCRETIZANDO DESEJOS: ASPECTOS PÓS-COLONIAIS E A EMANCIPAÇÃO EMININA NO POEMA PINGENTES DE CITRINO, DE ADÉLIA PRADO
Autora:
Adriana Minervina da Silva¹


O ROMANCE ROMÂNTICO E A PINTURA DE PAISAGEM: DOCUMENTOS DO ESPAÇO
Autora: Bianca Campello Rodrigues Costa¹


A LITERATURA EM LÍNGUA “ESTRANGEIRA” POR SI, UM OLHAR.
Autora: Érica Thereza Farias Abrêu (UFPE/UNEAL)


ENSINO DE GÊNEROS TEXTUAIS ESCRITOS: UM ESTUDO DE CASO DE UMA PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO
Autoras:
Luciana Vieira Alves Rocha¹
                 Maria de Fátima Alves²




 UMA ANÁLISE INTERSEMIÓTICA DA ADAPTAÇÃO DO LIVRO AS HORAS PARA O CINEMA.
Autora: 
Luiza Moreira Dias (UFPE)



CULTURA E LÉXICO NA OBRA MACHADIANA
Autora: Maryelle Nascimento - UFRPE



A FUNCIONALIDADE DOS PRONOMES RELATIVOS: “O QUE” EM QUESTÃO
Autores: Noelma Cristina Ferreira dos Santos (UEPB-UFPB/PROLING)¹
                 Camilo Rosa Silva (UFPB/PROLING)²



CAÇADAS DE PEDRINHO E A FORMAÇÃO CRÍTICA, IDEOLÓGICA E PERCEPTIVA DO LEITOR LITERÁRIO
Autores: Wilck Camilo Ferreira de Santana(UFRPE)¹