Edição JUL / DEZ - 2018

    

      Neruda, em “El mar”, diz “necesito el mar porque me enseña” – poema que aparece em nossa seção literária deste número da Revista. Talvez esse aprender com as forças incontroláveis da natureza seja o mais duro aprendizado que nós, seres humanos, temos constantemente diante de nosso horizonte. Aprender com a natureza é reconhecer nossa insignificância ante o mundo em toda a sua potência, e não aquele mundo pequeno tem em nós seu centro. Reconhecer nosso próprio tamanho frente ao mundo, ao contrário do que possa parecer, é de uma força imbatível – é entender que nosso conhecimento é limitado e subjetivo, mas, dentro desses parâmetros, entendemos que cada trabalho, cada estudo é um esforço para expandir nossas fronteiras do saber. Abarcar isso como parte de nossa prática acadêmica é assumir uma postura científica concreta, daquela que não produz verdades, mas sim entende condições e, além de tudo, é mais empática e disposta ao diálogo. Diálogo imensamente necessário nos dias de hoje. Esse espaço de diálogo é o que desejamos e o que pretendemos fomentar na revista Encontros de Vista, que, neste número, apresenta uma série de trabalhos que buscam discutir uma ampla gama de temas nas áreas de Literatura e Linguística.

No trabalho “A colheita do imaginário: uma análise dos símbolos viagem e casa na narrativa de Nelida Piñon”, Marina Maimone de Almeida e Sherry Almeida buscam discutir sobre o paradigma humano de finitude através da análise do conto “Colheita”, parte do livro Sala de Armas. Já Antony Cardoso Bezerra e Ricardo Sérgio Nascimento Rosas analisam o romance Deporto-rei, do autor português Romeu Correia, observando o papel do futebol e de que maneira esse governo lidou com a presença de estrangeiros durante a Segunda Guerra Mundial.

O artigo de Camila da Silva Lucena, intitulado “A construção discursiva do ciberativismo: dialogismo, alteridade e pontos de vista”, tem como objetivo analisar a construção dialógica de campanhas virais que surgem nas redes sociais, motivadas por polêmicas que não acontecem necessariamente no meio virtual. Ao considerar a abrangência do ENEM, que mobiliza aproximadamente 6 milhões de participantes e, possivelmente, influencia a prática de muitos professores, Anderson Lins Rodrigues propõe compreender, no artigo “O estado, a língua e o / no ENEM”, à luz da Análise de Discurso de linha francesa, as estratégias discursivas de controle/regulagem da língua e de sua heterogeneidade que sustentam o funcionamento polêmico do discurso sobre a Língua Portuguesa no ENEM.

Mizael Inácio Nascimento e Myllena Alves de Jesus, em “Lingua(gem): de sistema perfeito a lugar de equívocos”, refletem sobre as perspectivas resultantes das investigações sobre a língua(gem) ocorridas, evidenciando a arduidade com que filósofos e linguistas se esforçaram para compreender esse sistema vivo, mutável, espaço também de equívocos, falhas, incongruências, pontuando o fascínio por esse estudo, que é primitivo, propagando-se desde a Antiguidade Clássica e se mantendo até os dias atuais. Já em “A reescrita como prática de uma avaliação formativa”, Sandra Helena Dias de Melo discute como os sujeitos graduandos da licenciatura inseridos no Programa de Iniciação à Docência têm adotado a escrita como objeto de ensino-aprendizagem numa avaliação formativa.

Ancorado na Análise do Discurso de linha pecheutiana, o artigo “‘Do ritual à falha’: entendendo a construção de sentidos pelas fissuras da interpelação”, de autoria de Myllena Alves de Jesus, visa compreender como a construção de sentidos está primordialmente ligada à interpelação do sujeito. Para tanto, ela discute que, enquanto sujeito histórico, o sujeito discursivo – duplamente afetado pela ideologia e pelo inconsciente – é cego quanto a isso e se acha na origem de si e fonte de seu dizer quando, na verdade, apenas retoma sentidos preexistentes. Dina Maria Martins Ferreira e Marcos Alberto Xavier Barros, no artigo intitulado “Escola sem partido: uma virtude discursiva?”, analisam os significados discursivos veiculados no cartaz do Programa Escola Sem Partido, em que consta os deveres do professor, de modo a não ser condutor de doutrinação ideológica junto aos alunos, e sim de uma postura de neutralidade partidária.

Por fim, reiteramos, como de costume, nosso convite às leitoras e aos leitores para se renovarem com a vigésima segunda edição. Sejam muito bem-vindas/bem-vindos para desvelarem novas produções de sentido!

Boa leitura!


Os Editores

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Artigos:

A COLHEITA DO IMAGINÁRIO: UMA ANÁLISE DOS SÍMBOLOS VIAGEM E CASA NA NARRATIVA DE NÉLIDA PIÑON
Autoras:
Marina Maimone de Almeida¹
                  Sherry Almeida²


DESPORTO-REI, DE ROMEU CORREIA: O FUTEBOL E OS ESTRANGEIROS NO ESTADO NOVO PORTUGUÊS
Autores: Antony Cardoso Bezerra¹
                 Ricardo Sérgio Nascimento Rosas²


A CONSTRUÇÃO DISCURIVA DO CIBERATIVISMO: DIALOGISMO, ALTERIDADE E PONTOS DE VISTA
Autora: Camila da Silva Lucena¹


O ESTADO, A LÍNGUA E O / NO ENEM
Autor:
Anderson Lins Rodrigues¹      



 LINGUA(GEM): DE SISTEMA PERFEITO A LUGAR DE EQUÍVOCOS
Autores: 
Mizael Inácio do Nascimento¹
                 Myllena Alves de Jesus²


A REESCRITA COMO PRÁTICA DE UMA AVALIAÇÃO FORMATIVA
Autora: Sandra Helena Dias de Melo¹


“DO RITUAL À FALHA”: ENTENDENDO A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS PELAS FISSURAS DA INTERPELAÇÃO
Autora: Myllena Alves de Jesus¹


ESCOLA SEM PARTIDO: UMA VIRTUDE DISCURSIVA?
Autores: Dina Maria Martins Ferreira¹
                 Marcos Alberto Xavier Barros²