Edição JAN / JUN - 2017

    

      O que compõe esse amplo, discutível, diverso e idiossincrático campo da literatura contemporânea? A resposta a essa pergunta vem suscitando vários debates e discussões. Esse dossiê temático originou-se inicialmente de uma proposta de disciplina, ministrada ao longo do primeiro semestre de 2016 no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que visavadiscutir essa produção a partir de alguns temas identificados como importantes na produção contemporânea.

Os trabalhos aqui apresentados são frutos da produção desses alunos e de alguns convidados que se propuseram a escrever dentro dos limites discutidos e propostos pela temática. Apesar da fluidez e da flexibilidade inerente ao conceito de literatura contemporânea, as leituras se concentraram, especialmente, nas produções das três últimas décadas. Esse período parece revelar um diálogo profundo com novas
formas de convivência social e novas formas de leitura que, mesmo mantendo um contínuo diálogo com o passado, estabelecem tipos de escritas outros. As formas de pensar o passado e a história, a experiência urbana, a relação com as mídias, as novas formas de violência, a reconfiguração de um mundo que no início dos anos 1990 marcava novos rumos de renovadas esperanças/utopias fazem parte do contexto cultural que se pretende abordar. Os limites-eixos do estudo estavam traçados pelos quatro núcleos temáticos delimitados no começo do semestre: narrativas da violência; escritas de si, autobiografias e autoficções; urbanidades e cosmopolitismos; e releituras históricas, fragmentos de memória e reconstruções do passado.
   
Os catorze trabalhos aqui apresentados contemplam de alguma forma esses temas. A cidade e sua periferia é o foco de “Um periférico no centro”, artigo de Mariana de Matos Moreira Barbosa que trata da poesia do pernambucano Miró e suas relações com a cidade do Recife através de sua construção/figuração vista da sua periferia. As relações implícitas e explícitas da violência implicada nesse processo também constituem esse texto. Carlos André Cordeiro de Oliveira, em “Sobre cidades-ilhas: literatura e mediações estéticas”, propõe uma leitura da literatura caribenha, através de autores como Chamoiseau e Glissant, a partir dessa estrutura da ilha/cidade que conforma o pensamento e as interseções culturais no espaço caribenho.

A violência e o espaço da cidade também constituem focos do trabalho de Ariela Fernandes Sales, em “O palco e o alvo: espaço urbano e ação em O Matador, de Patricia Melo”. Nele são abordadas as formas da violência através do espaço urbano e da ação na obra O Matador. As formas e os percursos da violência na peça Incêndios do escritor libanês radicado no Canadá, Wajdi Mouawad são analisados por Antonio Lamenha em “Os caminhos da descoberta e as violências em Incêndios, de Wajdi Mouawad”. Esses aspectos na obra de Mouawad retomam o trajeto da memória e da busca das origens, enfocando as formas do silêncio que, através da linguagem, evocam as impossibilidades de fala e de narrativa dos traumas, especialmente vinculados aos conflitos bélicos. Em “Memória e representação ficcional em O enigma de Qaf, de Alberto Mussa”, Cristhiano Aguiar trabalha a questão da memória e o estatuto da representação ficcional como metáforas que surgem da trama do romance de Mussa em que “memória, ficção e representação são problematizados em registros permeados pelo lúdico da metalinguagem, da imaginação e da especulação teórico-filosófica”.

As diferentes figurações da América, em uma seleção de obras de Eduardo Galeano, constituem o cerne da análise de Roberta da Silva Muniz, em “Nas tramas da história: (re)visões da América nas narrativas de Eduardo Galeano”. Em seu texto, Roberta aponta como o autor uruguaio discute as formas de entender e construir a história e suas configurações na América Latina do passado à contemporaneidade. Já em “Afro-rizomas da diáspora negra entre Brasil, angola e Portugal”, Silvana Carvalho da Fonseca trata da produção estética do hip hop como uma faceta da escrita poética contemporânea e, através do conceito de afro-rizomas, busca identificar como os sujeitos, que se caracterizaram dentro de uma condição de diaspórica, tentam reelaborar a memória coletiva e reescrever a história negra no mundo a partir do movimento hip hop.

Retrocedendo um pouco ao recorte temporal proposto, Leonardo Renda Kajdacsy-Balla Amaral (“Drummond, a cidade sem problemas”) delineia o espaço da cidade construído pelo poeta mineiro no poema “Retrato de uma cidade” (1977). As configurações urbanísticas e geográficas, permeadas pelos desejos e sentimentos do poeta, aparecem como foco dessa leitura. Também sobre as repercussões artísticas da cidade, trata o ensaio “Itinerários do corpo na cidade: do flâneur ao performer”, de Wellington de Melo. Nele, Wellington discute, a partir do trabalho dos poetas performáticos Miró da Muribeca e Biagio Pecorelli, uma espécie de transição do poetaflâneur para o poeta-performer, mudança que significaria a transição de atitude de poeta da modernidade para a pós-modernida. Também da produção poética trata o texto “Poesia Contemporânea: uma aproximação horizontal”, de Thays Keylla de Albuquerque. A autora elabora uma possibilidade de aproximação da poesia contemporânea brasileira considerando as apreciações críticas que têm sido feitas nesse
campo e pensando a partir muito mais de uma inclusão das produções poéticas do que através do já estabelecido paradigma crítico da exclusão por ausência de qualidade técnica e/ou estética.

Ágnes Souza, em “Homogeneização, escrita autodiegética e os protótipos de cidade n’O corpo que nasci de Guadalupe Nettel”, lê o romance da autora mexicana através dos eixos da escrita de si, das impressões da cidade e da homogeneização. Sua análise segue pelas impressões causadas pelo confronto do corpo marcadamente diferente da protagonista e sua não correspondência com os estereótipos e expectativas, de uma maneira mais ampla, lendo esse material como uma ficcionalização da própria autora, que publicou o texto como um romance autobiográfico. Entram em cena também as representações das cidades através da forma como México D.F. e Aix se configuram e contribuem para instituir a identidade da narradora. Um pouco dos elementos do confronto, violência e traços de memória constam como tema do texto de Lívia Maria da Costa Carvalho, “Diálogos sobre a violência e autofiguração na escrita literária de Patrick Chamoiseau”, que apresenta uma leitura da obra Un dimanche cachot considerando a violência e o trabalho de perlaboração dos traumas do presente nas memórias do passado mais antigo, no passado de um povo. Dessa forma, o autor martiniquense visita ficcionalmente, como argumenta Lívia, um passado de violências decorrentes do processo de escravidão trabalhando em vários níveis da memória cultural. Esse trajeto também é introduzido pela figura de um personagem que representa uma autofiguração do próprio escritor Patrick Chamoiseau.

“Walkscapes em Saturno: a geografia destroçada na escrita de W. G. Sebald”, Priscilla Campos analisa a obra Os Anéis de Saturno, buscando associar, a partir dessa narrativa memorialista, formas de articular a geografia, noções de territorialidade e elementos do corpo urbanístico que podem ser lidos através da literatura. Sua leitura encontra no autor alemão uma geografia da ruína, transformando “a paisagem em alegoria-fantasma e o sujeito em corpo itinerante”. Por último, em meu artigo “Documentos reais, documentos ficcionais: discurso e ficção em Abril Rojo e Delegado Tobias”, discuto, brevemente e de forma ainda embrionária, as possibilidades de correlações e nexos entre os espaços do real e do ficcional na literatura contemporânea a partir dessas duas obras. O foco do estudo está na replicação de ficcional de modelos de documentos reais fazem emergir um já não tão recente debate sobre as fronteiras do ficcional.

Todos os trabalhos aqui presentes constituem um esforço para ler e incorporar uma produção mais ou menos contemporânea que requer um espaço e um cuidado de leitura, uma vez que tentam ler o contemporâneo, seus contemporâneos, sem o aparente discernimento que a distância temporal pode acrescentar à crítica literária. Nesse sentido, todos os artigos desse volume são ensaios; ensaios de leitura que também tentam, à medida que leem o contemporâneo, estabelecer paradigmas críticos e estéticos que possam ler nosso tempo pelo nosso tempo, incorrendo nos erros e nas idiossincrasias fatalmente presentes e assumindo esses erros como possibilidades do contemporâneo. Convidamos todos a lerem os artigos, mas também os livros dos quais falamos – a literatura –, porque ambos são partes desse conjunto ainda amorfo que constituem “nosso contemporâneo”.

Brenda Carlos de Andrade
Editora desse dossiê

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Contra-capa


Editorial
Autora:
Brenda Carlos de Andrade

 


Artigos:

HOMOGENEIZAÇÃO, ESCRITA AUTODIEGÉTICA E OS PROTÓTIPOS DE CIDADE N’O CORPO EM QUE NASCI DE GUADALUPE NETTEL
Autora:
Ágnes Souza¹


OS CAMINHOS DA DESCOBERTA E AS VIOLÊNCIAS EM INCÊNDIOS, DE WAJDI MOUAWAD
Autor: Antonio Lamenha¹


O PALCO E O ALVO: ESPAÇO URBANO E AÇÃO EM O MATADOR, DE PATRÍCIA MELO
Autora: Ariela Fernandes Sales¹


SOBRE CIDADES-ILHAS: LITERATURA E MEDIAÇÕES ESTÉTICAS
Autor:
Carlos André Cordeiro de Oliveira¹        




 MEMÓRIA E REPRESENTAÇÃO FICCIONAL EM O ENIGMA DE QAF, DE ALBERTO MUSSA
Autor: 
Cristhiano Aguiar¹



DRUMMOND, A CIDADE SEM PROBLEMAS
Autora: Leonardo Renda Kajdacsy-Balla Amaral¹



DIÁLOGOS SOBRE VIOLÊNCIA E AUTOFIGURAÇÃO NA ESCRITA LITERÁRIA DE PATRICK CHAMOISEAU
Autora: Lívia Maria da Costa Carvalho¹


UM PERIFÉRICO NO CENTRO: UMA LEITURA DA CIDADE DE RECIFE NA OBRA DE MIRÓ
Autora: Mariana de Matos Moreira Barbosa¹

WALKSCAPES EM SATURNO: A GEOGRAFIA DESTROÇADA NA ESCRITA DE W. G. SEBALD
Autora: Priscilla Campos¹

NAS TRAMAS DA HISTÓRIA: (RE)VISÕES DA AMÉRICA NAS NARRATIVAS DE EDUARDO GALEANO
Autora: Roberta Maria da Silva Muniz¹

AFRO-RIZOMAS DA DIÁSPORA NEGRA ENTRE BRASIL, ANGOLA E PORTUGAL
Autora: Silvana Carvalho da Fonseca¹

POESIA CONTEMPORÂNEA: UMA APROXIMAÇÃO HORIZONTAL
Autora: Thays Keylla de Albuquerque¹

ITINERÁRIOS DO CORPO NA CIDADE: DO FLÂNEUR AO PERFORMER
Autor: Wellington de Melo¹

DOCUMENTOS REAIS, DOCUMENTOS FICCIONAIS: DISCURSO E FICÇÃO EM ABRIL ROJO E DELEGADO TOBIAS
Autora: Brenda Carlos de Andrade¹