Edição JUL / DEZ - 2008

                    Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. Esse verso de Manoel de Barros, de O Livro Sobre Nada, inspira-nos a apresentar aqueles que revelaram suas palavras em artigos que compõem o segundo número da Encontros de Vista, revista eletrônica semestral do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Linguagem (NIEL) que visa a sistematizar, a consolidar e a disseminar idéias sobre distintas experiências no campo da linguagem e de suas interfaces, tornando-se fonte de referência para documentação e estudos a ela (linguagem) vinculados.

             As palavras estiveram nas bocas e nas mãos de Bethania Sampaio Mariani, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do CNPq; Carlos Eduardo F. Luna, Fábio A. de Oliveira, Jhonnatta Gomes Mendonça, Rodrigo Vieira de Assis e Gustavo Manoel da S. Gomes, Luiz Domingos do Nascimento Neto, respectivamente, graduandos dos cursos de Bacharelado em Ciências Sociais e Licenciatura em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e membros de grupos de pesquisa dessa instituição; Francisca Ramos-Lopes, professora da UERN/CAWSL (Assu, RN), doutoranda em Estudos da Linguagem (UFRN) e pesquisadora do PRADILE; Tânia Lima, escritora e doutoranda da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Jarbas Vargas Nascimento, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Wendel Lessa V. Xavier, professor das Faculdades do Instituto Superior de Educação Santo Agostinho, em Montes Claros-MG, e doutorando da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Konstanze Jungbluth, da Europa-Universität Viadrina Kulturwissenschaftliche Fakultät Lehrstuhl für Sprachwissenschaft: Deskriptive Linguistik und interlinguale Soziolinguistik; e Mari Noeli Kiehl Iapechino e Valéria Severina Gomes, professoras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e idealizadoras do NIEL e desta Revista.

            Bethania Mariani, em Quanto vale uma língua? O apagamento do político nas relações econômicas e lingüísticas, traz como proposta discutir a expressão “língua como variável econômica”, empregada tanto por lingüistas quanto por economistas contemporâneos, com a retomada crítica de um percurso de metáforas e de análises que incide sobre as relações entre Lingüística e Economia. Em O grafite: uma forma de expressão social, Carlos Eduardo F. Luna, Fábio A. de Oliveira, Jhonnatta Gomes Mendonça, Rodrigo Vieira de Assis analisam as relações sociais e os contextos sócio-históricos nos quais estão inseridos ou são produzidos os grafites e as (re)leituras dos discursos neles contidos. Sob as perspectivas sócio-discursiva e histórica, o estudo enfoca os reflexos da era moderna, do avanço industrial e da globalização nos sujeitos-autores do grafite e na sua forma de pensar e apreender a urbe da qual tomam parte e na qual manifestam seus discursos. Gustavo Manoel da Silva Gomes e Luiz Domingos do Nascimento Neto, em A cultura afro-brasileira no saber escolar contemporâneo: articulando histórias, linguagens, memórias e identidades, discutem o ensino de História da África e da cultura afro-brasileira em sala de aula, de forma a promover a reflexão sobre a importância da linguagem como instrumento de configuração de novos saberes. Em um percurso que sugere a retomada histórica dos processos de aprendizagem acerca de uma (História da África) e de outra (cultura afro-brasileira) e os alicerces teórico-metodológicos do Interacionismo Lingüístico e da Nova História Cultural, apresentam-se algumas possibilidades de ações que favoreçam a (re)significação dos saberes, das memórias e das identidades e que, por conseguinte, inspirem novas práticas docentes no ensino de História da Cultura Afro-Brasileira. Em discussão que se aproxima, em alguns pontos, do trabalho de Silva Gomes e Nascimento Neto, Francisca Ramos-Lopes, com O racismo e algumas relações afetivas: uma análise de práticas discursivas constitutivas de identidades étnico-raciais, apresenta análise, em fase preliminar e ancorada em estudos sobre questões raciais, das práticas discursivas que permeiam auto-narrativas de professoras de escolas públicas do Rio Grande do Norte, com o propósito de evidenciar as marcas identitárias traduzidas nos discursos dessas professoras e vinculadas ao seu pertencimento étnico-racial. Tânia Lima, para quem um poema manoelino não se atravessa sem sair inútil de invenção, com A travessia da palavra: algumas inutilidades em Manoel de Barros e com os fundamentos teóricos centrados no imaginário bachelardiano, percorreu o verso pelas marcas da oralidade, atentando para o jogo do poeta com o verbo, até encontrar as transfigurações e os sentidos fundados por ele (poeta) – segundo a autora, uma espécie de jogo movediço, carregado de “imaginário”, que viaja no “entre-espaço” do lúdico e do lúcido. Inaugurando os estudos sócio-históricos da língua, considerado o grupamento dos três últimos artigos desta seleção, a pesquisa da professora alemã Konstanze Jungbluth, Atribuindo estrutura espacial ao tempo: o futuro através das línguas românicas, discute, a partir de relações entre línguas românicas, a variação de emprego dos pronomes demonstrativos, assim como a variabilidade cognitiva, e enfatiza as conceituações de tempo em função do espaço no espanhol, no catalão e no português do Brasil. O trabalho de Jarbas Vargas Nascimento e Wendell Lessa Vilela Xavier, As funções do pronome SE: entre Othoniel Motta e Said Ali, por sua vez, objetiva examinar a polêmica entre Othoniel Motta e Said Ali, nos primeiros anos do século XX, sobre o emprego do pronome SE. Com opinião diversa de Said Ali, Othoniel Motta organizou o documento O Pronome SE, no qual apresenta oito razões que sustentam sua tese sobre o emprego desse pronome, contrapondo-se à posição defendida por Said Ali, objeto deste estudo. Por fim, Imagens de si em manuscritos do século XIX: ethos e autoria em cartas pessoais, de Mari Noeli K. Iapechino e Valéria S. Gomes, a partir da perspectiva de Maingueneau (1995; 1997; 2001; 2005 e 2006), traz a análise de cartas pessoais do século XIX, com a proposta de observar as formas de representação do sujeito-autor dessas cartas em suas relações com seu outro, defendendo que os sentidos desse autor e de seu outro significam e são significados também em função de um tempo, de uma sociedade e de uma cultura e marcam-se no discurso.

           Na introdução de seu livro O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício, Ginsburg (2007) retoma a narrativa grega em que Teseu recebe de presente de Ariadne um fio e com ele se orienta no labirinto, encontrando e matando o minotauro. Nessa narrativa, o autor ressente-se, no entanto, dos rastros que Teseu deixou impregnados pelo labirinto ao vagar por ele e do qual o mito não trata. Por isso, ao apresentar seu livro, atribui a união dos capítulos de temáticas tão diversas à relação entre o fio – do relato que orienta aos que o lêem no labirinto da realidade – e os rastros. Isso nos faz retomar o verso de Manoel de Barros do início de nosso texto – Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelo –, para afirmar que palavras cheias de bocas, nossos fios no segundo número da Encontros de Vista, e rastros (somos gratas por eles) permanecem, afinal, como o poeta, lidamos com descomeços, desimportâncias e desinvenções.
Gratidão aos que deixaram, até aqui, seus fios e rastros na Encontro de Vista e convite aos que por ela se interessarem (membros do NEL ou não) a fazerem o mesmo, enviando-nos suas escritas para a composição de seu terceiro número (abril de 2009).

Mari Noeli Kiehl Iapechino
Valéria Severina Gomes

 

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QUANTO VALE UMA LÍNGUA? O APAGAMENTO DO POLÍTICO NAS RELAÇÕES ECONÔMICAS E LINGÜÍSTICAS*
Autora:
Bethania Mariani

A CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO SABER ESCOLAR CONTEMPORÂNEO: ARTICULANDO HISTÓRIAS, LINGUAGENS, MEMÓRIAS E IDENTIDADES
Autores:
Gustavo Manoel da Silva Gomes, Luiz Domingos do Nascimento Neto

O RACISMO E ALGUMAS RELAÇÕES AFETIVAS: UMA ANÁLISE DE PRÁTICAS DISCURSIVAS CONSTITUTIVAS DE IDENTIDADES ÉTNICO-RACIAIS
Autora:Francisca Ramos-Lopes

O GRAFITE: UMA FORMA DE EXPRESSÃO SOCIAL
Autores:Carlos Eduardo Falcão Luna, Fábio Alves de Oliveira
               Jhonnatta Gomes Mendonça, Rodrigo Vieira de Assis*

A TRAVESSIA DA PALAVRA: ALGUMAS INUTILIDADES EM MANOEL DE BARROS
Autora: Tânia Lima

ATRIBUINDO ESTRUTURA ESPACIAL AO TEMPO: O FUTURO ATRAVÉS DAS LÍNGUAS ROMANAS
Autora: Konstanze Jungbluth

AS FUNÇÕES DO PRONOME “SE”: ENTRE OTHONIEL MOTTA E SAID ALI
Autor: Jarbas Vargas Nascimento, Wendell Lessa Vilela Xavier

IMAGENS DE SI EM MANUSCRITOS DO SÉCULO XIX: ETHOS E AUTORIA EM CARTAS PESSOAIS
Autores: Mari Noeli Kiehl Iapechino, Valéria Severina Gomes