Edição JUL / DEZ - 2015

    

Suponhamos que alguém de fora, neste momento difícil em que se encontra o país, pudesse imaginar Como o Brasil, do ponto de vista acadêmico, pode produzir diante de tanta instabilidade? Não sendo alheio a tal questionamento, devido inclusive à sua motivação e preocupação, poderíamos dizer que, em momentos como esses, à revelia do que se apresenta em forma de marasmo e desilusão, podemos encontrar fontes criativas e motivos de sobra para não só produzir conhecimentos e reflexão, mas também produzirmos e lermos periódicos, a título do que estamos fazendo com mais uma edição
da Encontros de Vista.

A 16ª edição da revista está prazerosa e temperada com artigos, ilustrações e poemas que refletem sobre educação, língua, literatura, arte, e por que não dizer vida, ora discutindo teórica ora expondo criticamente, e ambos, todo esse universo. Para apimentar e denunciar nossos males, selecionamos poemas e imagens que denunciam e repudiam formas de opressão, num momento preocupante do país, quando surgem formas de fascismo que parecem querer calar formas diferentes de amar e viver.

Quanto aos artigos, nesta edição, podemos dizer que tratam de questões e temáticas relevantes, bem como proporcionarão aos leitores o desejo de aprofundamento das discussões postas. O artigo Literatura e identidades locais: uma investigação escolar, de Eduardo Henriques, por exemplo, trata do ensino de Literatura em escolas públicas e privadas da região metropolitana do Recife/PE. Objetivando investigar a inserção das literaturas locais nas salas de aula, Henriques trouxe à baila considerações a respeito da relação de docentes com seus conteúdos curriculares e sua instituição de ensino. A partir de um aporte teórico baseado em autores como Celani (2004;2000), Moita-Lopes (2013;2009) e Kleiman (2013;2004), este artigo busca refletir sobre prática docente na literatura na construção de identidade cultural pela literatura local. Neste trabalho, observou-se que a formação escolar e de graduação dos professores pode ser um dos motivos para que esses não adotem a literatura de autores pernambucanos, embora se compreenda como consensual a necessidade de tal literatura entrar nas salas de aula do estado.

O artigo intitulado Crônica: uma tradição discursiva entre o jornalismo e a literatura, de Carolina Maria Bezerra Cavalcanti e Valéria Severina Gomes, aborda a crônica como um gênero textual híbrido, ligado tanto ao jornalismo como à literatura. O objetivo é observar o percurso de mudança e permanência dessa tradição discursiva no período entre o século XIX e o XX, verificando como ela constitui-se nos diferentes suportes, como se organiza estruturalmente e como se comporta nos domínios jornalístico e literário, analisando a temática desenvolvida nos exemplares selecionados, a partir de um corpus constituído de 14 crônicas publicadas em jornais de autoria de escritores pernambucanos e de escritores que tenham tido ou ainda tenham ligação com Pernambuco.

Renato Gabriel Bezerra e Tatiana Simões e Luna, no artigo Concepções de linguagem: uma análise preliminar do discurso docente e das práticas em sala de aula, discutem como as concepções de linguagem influenciaram os documentos oficiais no que tange ao ensino de língua materna ao longo da história da educação no Brasil. O trabalho busca analisar como tal(is) concepção(ões) se apresenta(m) no discurso docente e, preliminarmente, se ela(s) se sustenta(m) em sua prática pedagógica, no intuito de, em estudos posteriores, dar continuidade a essa pesquisa. Os resultados iniciais revelam que os professores ainda se ancoram numa perspectiva estrutural, e, em suas práticas pedagógicas, predomina uma visão instrumental de língua.

Em Da realidade à metaficção: a reflexão especular no livro ilustrado, Fernanda Lima aia apresenta um breve panorama sobre a importância do livro ilustrado e sobre as mudanças nas suas formas de produção e de recepção. O livro ilustrado surge como um elemento artístico em que texto e suporte físico se relacionam proporcionando uma experiência sensível em um sentido amplo. Para tanto, a autora recorre aos conceitos de metaficção explorados por Gustavo Bernardo e Linda Hutcheon.

Outro panorama literário vamos encontrar em O uso do folheto de cordel na temática indígena. Nesse artigo, Kalhil Gibran Melo de Lucena se propõe a discutir e problematizar a temática da história e das culturas dos povos indígenas, sob a ótica de poetas de cordel, como: José Camelo, Severino Milanez e Francisco Sales. Para tanto, o autor promove reflexões nas aulas de História, com a utilização desses folhetos no universo escolar, estabelecendo relações entre a História e a Literatura, apoiando-se teórica e metodologicamente em autores como Chartier, a partir dos conceitos de prática, apropriação e representação; e Edson Silva acerca da história, culturas e sociodiversidades indígenas.

Também na esteira da literatura e buscando desentranhar um Fernando Pessoa em conflito com a possível relação como o Outro, Marcelo Jorge Pérez, em Alteridade e existencialismo no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, mergulha nas páginas do livro, na sua condição de livro emparentado com a autobiografia, em busca da relação de Fernando Pessoa com a alteridade. Tema inevitavelmente relacionado à sua vida e obra, já que ele mesmo escolheu ser Outros nas suas profusas páginas mediadas por tantos alter egos, mais divulgados como heterónimos. As análises do autor revelam um Pessoa desgostoso, e até cruel, com a humanidade e consigo próprio. Outras vezes, um Pessoa a se desmanchar de ternura por um simples gesto de atenção ou condescendência do próximo.

Voltados para a didática da oralidade, Ewerton Ávila dos Anjos Luna e Cristina Manuela Sá, no artigo O discurso de futuros profissionais de educação sobre didática da oralidade em curso de formação da Universidade de Aveiro – Portugal, discutem as representações de futuros profissionais de educação que atuarão com o ensino da língua portuguesa sobre a abordagem da didática da oralidade no seu processo de formação. A pesquisa, baseada em um estudo de caso, fundamentou-se nos trabalhos de Schneuwly e Dolz (2004), Núñez Delgado (2002), Perrenoud (1988), Nonnon (1999), dentre outros, e aponta como resultado uma grande evolução das representações das estudantes quanto à sua formação em didática da oralidade.

Por fim, temos ainda a satisfação de anunciar que, na próxima edição, contaremos com a possibilidade de publicação de dossiês, além da continuidade da submissão de artigos e resenhas. Este novo ingrediente tem como objetivo não só a diversificação de produtos acadêmicos publicados e publicizados por periódicos, mas também a satisfação de atender a uma demanda crescente que se via nesse tempo de vida da revista. Na próxima edição, publicaremos também dossiês que tratem da relação literatura e ensino.

Os Editores

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Artigos:

LITERATURA E IDENTIDADES LOCAIS: UMA INVESTIGAÇÃO ESCOLAR
Autor:
Eduardo Henriques (PPGL-UFPE)¹


CRÔNICA: UMA TRADIÇÃO DISCURSIVA ENTRE O JORNALISMO E A LITERATURA
Autoras: Carolina Maria Bezerra Cavalcanti¹
                 Valéria Severina Gomes
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CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM: UMA ANÁLISE PRELIMINAR DO DISCURSO DOCENTE E DAS PRÁTICAS EM SALA DE AULA
Autores: Renato Gabriel Bezerra¹
                 Tatiana Simões e Luna²


DA REALIDADE À METAFICÇÃO: A REFLEXÃO ESPECULAR NO LIVRO ILUSTRADO¹
Autora:
Fernanda Lima Maia²


 O USO DO FOLHETO DE CORDEL NO ENSINO DA TEMÁTICA INDÍGENA
Autor: 
Kalhil Gibran Melo de Lucena¹
ALTERIDADE E EXISTENCIALISMO NO LIVRO DO DESASSOSSEGO DE FERNANDO PESSOA
Autor: Marcelo Jorge Pérez¹
O DISCURSO DE FUTUROS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO SOBRE DIDÁTICA DA RALIDADE EM CURSO DE FORMAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO-PORTUGAL
Autores: Ewerton Ávila dos Anjos Luna¹
                 Cristina Manuela Sá
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